Em uma emergência grave, cada minuto conta. No Brasil, porém, as chances de conseguir uma vaga em UTI variam muito dependendo do tipo de cobertura de saúde do paciente. Um levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), publicado no mês de junho e divulgado pelo site do médico Drauzio Varella, mostra que quem depende exclusivamente do SUS tem até cinco vezes menos chance de ser internado em terapia intensiva do que quem tem plano de saúde.
“O desafio atual não está apenas no número total de leitos, mas principalmente na distribuição dos recursos e na capacidade de garantir acesso proporcional às necessidades da população”, afirma Cristiano Franke, médico intensivista e presidente da AMIB, em declaração ao site de Drauzio Varella. Para ele, mesmo com a expansão da rede hospitalar na última década, as desigualdades estruturais no acesso à terapia intensiva ainda persistem.
Brasil amplia leitos, mas desigualdade permanece

Entre 2016 e 2025, o número de leitos de UTI para adultos no país passou de cerca de 28 mil para mais de 47 mil. Com isso, o Brasil chegou a uma taxa de 22,3 leitos por 100 mil habitantes, acima da média global de 8,7. Boa parte dessa expansão aconteceu durante a pandemia de Covid-19, quando hospitais públicos e privados ampliaram sua capacidade para atender pacientes críticos, e muitos desses leitos foram mantidos após a fase aguda da crise.
No entanto, a quantidade de leitos não resolve o problema quando a distribuição é desigual. Em 2025, o país contabilizava 47.644 leitos de UTI adulto — crescimento de 67% em relação a 2016. Desse total, 24.426 estavam na saúde suplementar e 23.218 no SUS. Na comparação proporcional, a diferença é expressiva: 69 leitos por 100 mil habitantes na saúde suplementar contra apenas 13 no SUS.
SUS atende mais de 80% da população com muito menos leitos

Em 2025, o Brasil tinha cerca de 213,4 milhões de habitantes. Desse total, 177,9 milhões dependiam exclusivamente do SUS — mais de 80% da população — enquanto 35,5 milhões eram beneficiários de planos de saúde. Ou seja, o sistema público atende a maioria esmagadora dos brasileiros com menos da metade dos leitos de UTI disponíveis no país.
O impacto disso no cuidado ao paciente é direto. “Em medicina intensiva, o tempo é um fator crítico. Qualquer atraso na admissão em uma UTI pode aumentar o risco de complicações, sequelas e mortalidade”, alerta Franke.
Desigualdades regionais agravam o cenário
Além da diferença entre público e privado, o acesso à UTI também varia muito entre regiões. O Sudeste concentra 10.616 leitos de UTI pelo SUS — 15 por 100 mil habitantes —, enquanto o Norte conta com apenas 1.447 leitos e uma taxa de 8 por 100 mil. Na prática, um paciente atendido pelo SUS no Espírito Santo tem cerca de seis vezes mais chance de conseguir uma vaga em terapia intensiva do que um paciente no Amapá, por exemplo.
Em muitas dessas regiões, a falta de leitos próximos obriga a transferência de pacientes para outras cidades ou estados, o que pode atrasar o início do tratamento e agravar o quadro clínico. Para Franke, a solução passa por uma reorganização sistêmica: “Processos mais eficientes de regulação, sistemas de transferência mais estruturados e redes regionais articuladas podem ampliar o acesso e reduzir desigualdades”.
A COOENF acompanha esse debate porque ele diz respeito diretamente ao cotidiano da Enfermagem. São os profissionais da categoria que estão na linha de frente dos leitos de UTI, enfrentando diariamente as consequências de um sistema ainda marcado por desigualdades. Defender o acesso igualitário ao cuidado intensivo é, também, defender as condições de trabalho de quem cuida.