Celebrado em 26 de janeiro, o Dia da Gula costuma ser lembrado de maneira descontraída, associada apenas a exageros alimentares. No entanto, a data serve como um importante convite à reflexão sobre hábitos alimentares, saúde metabólica e autocuidado, especialmente em um cenário nacional marcado pelo crescimento de doenças crônicas relacionadas à alimentação.
Um exemplo são os dados apresentados a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017–2018), do IBGE. Segundo o estudo, os alimentos ultraprocessados já representam cerca de 18,4% das calorias totais disponíveis nos lares brasileiros, índice que vem crescendo de forma consistente nas últimas décadas.
Para tratar esse tema, conversamos com a Nutricionista Ana Paula Semmer Franceschini (CRN: 13507), parceira da COOENF, para esclarecer o melhor possível as dúvidas sobre questões relacionadas a gula.
“Do ponto de vista nutricional, a chamada “gula” raramente é apenas falta de controle. Na prática clínica, ela costuma ser um sinal: de restrição excessiva, de carência emocional, de uma rotina alimentar desorganizada ou até de uma alimentação pouco nutritiva ao longo do dia.”, esclarece a nutricionista.
Segundo Ana Paula, quando o corpo não recebe energia suficiente, variedade ou prazer, ele cobra depois, podemos gerar comportamentos de descontrole. Ou seja, a gula é uma tentativa do nosso organismo tentando se autorregular.
Gula, excesso e metabolismo: qual a relação?

Estudos mais recentes indicam que aproximadamente 20% das calorias consumidas por adultos no Brasil vêm de ultraprocessados, como refrigerantes, doces industrializados e refeições prontas.
Esse padrão alimentar está diretamente associado ao aumento de doenças metabólicas, como obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão, por exemplo. Para Ana Paula, o impacto dos alimentos ultraprocessados vai muito além do peso corporal.
“O consumo frequente pode aumentar processos inflamatórios, piorar a sensibilidade à insulina, desregular os mecanismos de fome e saciedade, prejudicar a saúde intestinal e provocar picos e quedas bruscas de energia ao longo do dia. Além disso, são alimentos formulados para estimular o consumo excessivo, o que dificulta perceber os sinais naturais do corpo.”.
Do ponto de vista nutricional, a “gula” não pode ser entendida apenas como falta de controle individual. Diversos fatores podem contribuir para episódios de consumo excessivo, entre eles:
- Estresse e carga emocional;
- Longas jornadas de trabalho;
- Privação de sono;
- Acesso facilitado a alimentos ultraprocessados;
- Alterações metabólicas e hormonais.
Obesidade e doenças crônicas: um alerta nacional

De acordo com a nutricionista, “quando a comida passa a gerar ansiedade, seja antes, durante ou depois das refeições, isso acende um alerta”.
“Os sinais nem sempre são evidentes, mas costumam aparecer no dia a dia de forma sutil. Culpa constante ao comer, sensação frequente de perda de controle, ciclos de restrição e exagero, comer no automático ou a necessidade de ‘compensar’ depois de uma refeição fora do plano são alguns deles”, explica Ana Paula.
O Sistema de Vigilância de Fatores de Risco (Vigitel) aponta que, em 2023, mais da metade da população adulta brasileira apresentava excesso de peso, e cerca de 1 em cada 4 adultos já vivia com obesidade nas capitais do país.
A obesidade e o sobrepeso são condições diretamente associadas a:
- Inflamação crônica;
- Alterações hormonais;
- Maior risco cardiovascular;
- Redução da qualidade de vida e da capacidade funcional.
Estudos estimam que o consumo excessivo de ultraprocessados esteja relacionado a dezenas de milhares de mortes prematuras por ano no Brasil, além de custos bilionários ao sistema de saúde.
Para Ana Paula, uma relação equilibrada com a alimentação não é perfeita, mas é leve, sem punições e sem extremos.
Profissionais da saúde também precisam olhar para o próprio cuidado
Pesquisas nacionais indicam que profissionais da saúde, apesar do conhecimento técnico, enfrentam dificuldades para manter hábitos alimentares saudáveis.
Estudos mostram alta prevalência de sobrepeso, alimentação inadequada e sedentarismo, especialmente entre aqueles que atuam em turnos noturnos e rotinas intensas.
Para profissionais da Enfermagem, o cuidado com a alimentação é parte essencial do cuidado integral, impactando:
- Energia e desempenho no trabalho;
- Atenção e segurança na assistência;
- Saúde mental e emocional;
- Longevidade profissional.
Prazer e equilíbrio: uma relação possível

Comer bem não significa abrir mão do prazer, com explica a nutricionista Ana Paula Semmer: “A melhor forma é com intenção e consciência, nunca com culpa”.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, recomenda priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, reduzir ultraprocessados e desenvolver uma relação mais consciente com a comida.
“Momentos de prazer fazem parte de uma vida saudável. O que realmente faz diferença é a frequência, o contexto e como essas escolhas se encaixam no todo. Quando a base da alimentação é bem construída, nutritiva e prazerosa, esses momentos não atrapalham, eles completam.”, ressalta a especialista.
Algumas atitudes simples fazem diferença:
- Organização das refeições;
- Respeito aos sinais de fome e saciedade;
- Redução do comer automático;
- Planejamento alimentar compatível com a rotina de trabalho;
- Busca por orientação profissional qualificada.
O Dia da Gula não precisa ser sobre culpa ou excessos, mas sobre informação, consciência e escolhas possíveis.
“Saúde não é sobre eliminar tudo o que dá prazer, mas sobre construir um dia a dia que sustente esses momentos sem desorganizar o corpo e sem pesar na mente.”, finaliza Ana Paula.
A COOENF reforça seu compromisso com o cuidado integral dos profissionais de Enfermagem e acredita que informação de qualidade é um passo fundamental para o bem‑estar, a valorização profissional e a sustentabilidade da carreira.
OBS: conteúdo produzido com base em dados oficiais e com a contribuição da Nutricionista Ana Paula Fachini Semmer, parceira da COOENF.