Mario Nunes, enfermeiro e doutorando em Ciência Política, explica a importância da representatividade política para a enfermagem
Quem trabalha na enfermagem sabe o que é enfrentar plantões exaustivos, lidar com equipes reduzidas e, muitas vezes, não ter sequer um espaço adequado para descansar. Mas o que essas situações têm a ver com política? Mais do que parece. Salários, dimensionamento de equipes, condições de trabalho e valorização profissional passam por decisões tomadas nos espaços de poder. E, quando a enfermagem não ocupa esses espaços, outras pessoas decidem por ela.
É sobre essa relação entre o cotidiano da profissão e a participação política que a Cooperativa de Enfermagem do Paraná (COOENF) conversou com o Professor Mario Gilberto Jesus Nunes, enfermeiro, gestor e doutorando em Ciência Política pela UFPR. Pesquisador da representatividade política da categoria, ele defende que a enfermagem precisa transformar sua força numérica e sua experiência prática em voz ativa nas decisões que afetam a profissão e a saúde da população. Pesquisador do assunto, Mario Nunes fala sobre o que está em jogo quando a maior categoria da saúde do Brasil segue ausente dos espaços de decisão e poder.
O senhor é enfermeiro, gestor, pesquisador e desenvolve uma tese de doutorado na UFPR sobre participação e representatividade política da enfermagem. Como surgiu o interesse por estudar essa interface entre enfermagem e política, e o que essa escolha revela sobre os desafios que a profissão ainda enfrenta?
Meu interesse pela temática surge de dois fatores principais. O primeiro é a minha trajetória na enfermagem, que começa na formação técnica, passa pela atuação como técnico, chega à graduação como enfermeiro e à pós-graduação. Esse percurso, combinado com a realidade vivenciada por mim e por tantos outros colegas no Brasil, foi o que motivou o interesse.
A profissão tem uma dimensão gigantesca no país. No entanto, essa dimensão – combinada com o fato de sermos essenciais nos serviços de saúde e de sermos presença majoritária em tantos e tantos serviços – não se converte em reconhecimento, em valorização nem em melhorias das nossas condições de trabalho. E tampouco se converte em engajamento político.
O que essa escolha revela? Revela que a nossa categoria, por mais que tenha essa dimensão numérica e seja essencial na maioria dos serviços de saúde, ainda sofre com uma remuneração indigna, incompatível com a importância da profissão. Sofre com condições de trabalho que, em muitos lugares, são muito, muito cruéis – desumanas com os usuários, com os pacientes e com os próprios profissionais. E sofre ainda com pouco engajamento político-partidário e uma representatividade muito limitada nos espaços de decisão e poder.
A enfermagem é a maior categoria da saúde no Brasil, com mais de 3 milhões de profissionais registrados. Mesmo assim, sua presença nos espaços de poder é historicamente pequena. Por que isso acontece, e o que está em jogo quando a enfermagem não ocupa esses espaços?
O que a nossa categoria ainda tem dificuldade de entender é que tudo o que envolve a nossa assistência – seja na atenção primária, secundária ou terciária – passa por definições políticas. O salário, o dimensionamento, as legislações aplicadas à categoria: tudo isso é decidido em espaços políticos.
E o que acontece quando não estamos lá? Os cargos e mandatos existem de qualquer forma. Essas pessoas estão deliberando e decidindo sobre a nossa profissão e sobre a saúde, com ou sem a nossa presença. Se nós, enfermeiros, técnicos e auxiliares, não ocuparmos esses espaços, outras pessoas o farão — como vêm fazendo durante todos esses anos. Pessoas que podem não ter o mínimo conhecimento, a mínima sensibilidade ou a mínima compreensão do funcionamento da enfermagem e da saúde. E serão essas pessoas que vão deliberar sobre o nosso futuro e o nosso exercício profissional. Por isso precisamos, sim, ocupar esses espaços de decisão e poder.
O senhor fala em uma “quinta dimensão” da enfermagem, que seria a participação e a representatividade política. Como o senhor definiria essa dimensão, e por que ela é tão importante quanto o cuidado clínico, a gestão ou a pesquisa?
Antes de mais nada, é importante entender que não se trata de uma quinta dimensão. Ela faz parte das dimensões do processo de trabalho do enfermeiro – é uma dimensão transversal, que perpassa a assistência, a gestão, o ensino e a pesquisa.
Por que isso? Porque participar politicamente impacta diretamente a assistência. Quantos profissionais tenho para prestar o cuidado? Como essa assistência vai ser prestada? Qual é a política de saúde que existe para sustentá-la? Como meu cuidado vai acontecer se não tenho profissionais, materiais ou estrutura suficientes? A participação política age exatamente nesse sentido: fortalece os profissionais e provê os recursos – humanos, materiais e estruturais – para que a assistência seja garantida.
Na gestão, o caminho é igualmente próximo. Se participamos politicamente, temos força para articular dimensionamento adequado, equipamentos e materiais. No ensino e na pesquisa, a lógica é a mesma: quantos professores um departamento vai ter? Como a organização curricular vai acontecer? Tudo isso é impactado por essa dimensão.
Por isso ela é transversal – não é necessariamente a quinta, mas perpassa todas as outras, no sentido de despertar a categoria para a importância de participar ativamente: garantindo a presença, o quantitativo adequado, o reconhecimento, a valorização e as condições dignas de trabalho.
E é importante deixar claro: participar politicamente não significa necessariamente participar de forma partidária. A expressão político-partidária é apenas uma das formas. Os conselhos de saúde, o Conselho Regional de Enfermagem, o sistema Cofen, as associações de especialistas, a Associação Brasileira de Enfermagem, os sindicatos – tudo isso nos mantém ativos politicamente. Os grupos de discussão, os espaços de integração de políticas públicas: essa participação é essencial e muito importante.
Recentemente tivemos eleições estaduais e federais no Legislativo e a eleição para o Executivo segue em pauta. O que significa votar conscientemente para um profissional de enfermagem? Quais critérios um enfermeiro ou técnico deveria usar na hora de escolher seus candidatos?
Há duas concepções aqui. Uma mais ampla, ligada à identificação de valores. E outra mais específica, do ponto de vista profissional.
Do ponto de vista do voto consciente do profissional de enfermagem, o primeiro passo é fazer um raciocínio suprapartidário. Para candidatos com histórico na política, precisamos analisar quais foram as contribuições concretas que fizeram ao longo de seus mandatos – no Legislativo ou no Executivo. Quais ações em prol da saúde? O que foi feito – ou deixado de fazer – pela categoria da enfermagem? Esse parlamentar, esse chefe do Executivo, de fato apoiou as nossas pautas?
E isso pode se expandir para a educação, para o saneamento básico, para as condições dignas de trabalho – entendendo saúde como um conceito amplo.
Mas o critério mais importante (durante o pleito) é dar atenção especial aos nossos colegas profissionais de enfermagem que se candidataram a cargos no Legislativo e no Executivo – deputados federais, estaduais, distritais, senadores. Precisamos analisar as propostas deles e considerar, de verdade, a possibilidade de votar nos nossos pares que se dispuseram a entrar no pleito.
Há quem argumente que política é um assunto que não diz respeito ao cotidiano de quem trabalha no plantão. Como o senhor responderia a esse profissional?
Infelizmente, pode soar forte, mas essa concepção denota uma ingenuidade – ou até mesmo uma ignorância. Deixa eu dar um exemplo pessoal. Quando eu era técnico de enfermagem e fazia plantão noturno, nós descansávamos em cima de um colchonete fininho ou de um cobertor, deitados no chão gelado de Curitiba. Depois, já como enfermeiro, muitas vezes no horário do descanso, eu ia para o carro, no estacionamento aberto, com temperaturas próximas de zero.
Isso diz respeito diretamente à nossa remuneração, às nossas condições de trabalho, ao dimensionamento, ao direito a um espaço adequado de descanso, à valorização. Tudo isso é o exercício da nossa profissão – e tudo isso é decidido na política.
Por isso, a concepção de que política não diz respeito a quem está no plantão precisa ser reelaborada. Quem está no plantão tem ainda mais razão para se preocupar com a questão política – e para colocar nos espaços de decisão quem possa ajudar a mudar essa realidade.
O senhor afirma que, quando a enfermagem não ocupa os espaços de decisão, outras pessoas ocupam esses espaços por ela. Quais são os riscos dessa ausência para a profissão e para a qualidade da assistência prestada à população?
O grande risco é simples: quem conhece enfermagem? Nós. Quem conhece a nossa realidade e está diariamente prestando cuidado em todos os contextos – hospitalar, atenção primária -, diuturnamente, aos pacientes e usuários? Somos nós.
Temos uma proximidade muito grande com a realidade da população. E temos propriedade – prática, técnica, teórica e intelectual – para abordar temáticas de saúde, elaborar políticas públicas, atuar em áreas como educação e saneamento básico. Porque saúde, num conceito ampliado, não é só serviços de saúde. Saúde se faz com educação, com saneamento, com alimentação adequada, com condições dignas de trabalho.
Somos os profissionais que podem – e devem – estar nesses espaços, para falar em nome da enfermagem e da população, que muitas vezes não tem quem a represente de verdade, entendendo sua rotina.
O que ocorre quando não estamos lá é que as cadeiras são ocupadas de qualquer forma. Um exemplo bastante comum: os profissionais médicos são maioria nos espaços políticos. São essenciais para o sistema, sem dúvida – mas não entendem as demandas reais da enfermagem. Não podemos delegar a outras profissões ou a outras pessoas a deliberação sobre a nossa realidade de trabalho. Por isso é tão importante que sejamos nós a ocupar esses espaços.
Em um momento em que o debate sobre representatividade política ganha força, qual mensagem o senhor deixa aos cooperados da COOENF sobre a importância de ocupar espaços de decisão e exercer o voto de forma consciente?
A mensagem principal é que olhemos para os nossos candidatos que são profissionais de enfermagem, analisemos suas propostas, o que defendem como pautas para a categoria – e que avaliemos também os que já exerceram mandatos: como foi esse exercício? Quais foram as contribuições?
É importante entender que nossas graduações e cursos técnicos não nos formam para cargos políticos. Não temos, infelizmente, formação em competências políticas. Por isso, peço que as pessoas realmente se dediquem a refletir sobre as candidaturas, sobre esses colegas, e considerem dar a eles o voto de confiança – cada um levando em conta seus próprios valores e critérios.
Mas, mais do que isso, digo ao pessoal da COOENF e aos colegas da enfermagem paranaense: busquem se aproximar das entidades que trabalham pela nossa categoria – o sistema Cofen e Coren, a Associação Brasileira de Enfermagem, os sindicatos, as associações de especialidades – e se façam presentes.
Os profissionais de enfermagem trabalham muito, muito mesmo. Movem o sistema de saúde. Mas, na hora de se manifestar, de aparecer, de ter voz, muitas vezes acabam se omitindo e deixando que outros falem por eles.
Então, comece pelo cotidiano: manifeste-se, faça-se presente, faça-se ouvir. Seja ativo no Conselho de Saúde da sua unidade, no Conselho Municipal de Saúde, nas associações, nos sindicatos. Esses também são espaços políticos. Não abram mão dessa presença e dessa participação. Isso, sim, é muito importante.